É através das mãos que o mundo permanece em sua contínua formação, representação que o homem dá a si mesmo e ao mundo,isto é, o homem que realiza o trabalho, também é formado por este. Desta forma, tudo passa pelo viés da constante transformação das coisas, inclusive o próprio homem, que é constantemente ressignificado, sendo o principal agente e modelador do mundo em que vive.
MUDA-SE O QUE NOS MUDA!

Na trilha dos destroços...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Já há muito tempo escuto sobre literatura africana, daí me propus a ler Chinua Achebe, um dos autores que eu sempre ouvira falar. O mundo se despedaça (com 1ª impressão em 1958) é sua obra primeira, e que também inaugura, o que os críticos costumam denominar de moderna literatura nigeriana.




Surpreendente deve ser o adjetivo mais repetido aqueles que lêem esta obra, e não consegui ser tão diferente em relação a isso. O livro O mundo se despedaça traz de maneira simples e direta os costumes e tradições do povo ibo antes da chegada dos missionários britânicos e como as tradições culturais vão ruindo a medida que o colonizador vai ganhando espaço físico, social e moral nas aldeias. A fim de narrar esse acontecimento, que nas linhas de Achebe se dá de maneira trágica,    Okonkwo é a personagem que representa e sintetiza a cultura ibo, deste modo será ele que irá até as últimas conseqüências com intuito de salvar sua aldeia da invasão do colonizador branco, sua religião e seu governo. Em síntese, como o próprio autor dividiu, o livro contém três partes: a vida de Okonkwo em Umuófia (sua aldeia); o exílio em Mbanta (terra de sua mãe) e os primeiros contatos com os brancos; e o retorno a Umuófia e o desmoronar das práticas e costumes aldeães.
Torna-se importante a leitura de O mundo se despedaça na medida em que o autor traça as características da chegada dos missionários britânicos, não por eles mesmos, mas sim por aqueles que receberam tal novidade, neste caso o povo ibo. Elementos dos textos que discutem a metodologia de se pesquisar a História da África se tornam evidentes, como por exemplo o valor da palavra para as culturas africanas em geral. O autor todo o tempo utiliza a tradição oral, estórias e provérbios, as vezes sem muita conexão para um leitor desabituado. Alinhavando acontecimentos, estórias e provérbios, Achebe põe em relevo que ao invés de tomarmos o processo de colonização como a vitória dos homens brancos, em certa medida o avanço colonizador se deu pelo processo de desestruturação da organização da própria aldeia. Okonkwo, que vive atormentado pelo passado do pai, passa a ter atitudes sempre a provar sua coragem e força, oriundo disso o autor elenca uma série de acontecimentos que levam seu protagonista a se envolver em episódios que o coloca como algoz do seu próprio futuro: bater na mulher na semana que antecede a colheita, presenciar a morte de Ikemefuna, atirar sem querer no filho de Ezeudu. Assim, Achebe deixa no ar a perspectiva de que esta série de acontecimentos atrai a má sorte para aldeia.



Ainda no que concerne a visão “por dentro” da ruína da vida de Okonkwo e, por conseguinte, de sua aldeia Umuófia, durante todo o enredo os mais velhos estão dando conselhos. Personagens como o velho Ezeudu e Uchendu, tio de Okonkwo, afirmam que já não se vive união entre as aldeias como no tempo deles. As coisas estão muito mudadas, os jovens não dão mais ouvidos aos anciãos, querem fazer as coisas por conta própria e já não tem amigos em outras aldeias. Essa visão de rompimento com os costumes é anterior ao contato com o homem branco, podemos aferir mais uma vez o fato de que Umuófia e as outras aldeias em geral como Abame e Mbanta, já continham elementos que provocariam o seu despedaçamento.
Todavia, se apropriando da vida do autor como referência para obra, vemos que podemos chamar Chinua Achebe como um “sujeitos híbrido”, ao lado por exemplo de Durval Muniz de Albuquerque Jr, autor de A invenção do Nordeste e outras artes; Edward Said, autor de Orientalismo: o Oriente como invençao do Ocidente; e Aimé Césaire, poeta martinicano e militante da política de negritude. Essa noção de sujeito híbrido parte da trajetória de vida destes autores e o que eles expressam em suas obras. Chinua Achebe escreve um romance que conta a maneira pela qual a sociedade ibo se desmoronou, seja a partir de seu contexto interno de grandes alterações nos costumes, seja no contato com o homem branco e sua religião. Ora, o autor de O mundo se despedaça nasceu em dos primeiros centros missionários anglicanos na região da Ibolândia na Nigéria, sua família era tipicamente cristã, estudou Medicina e Literatura na Universidade de Ibadan (construída pelo britânicos a fim de educar a elite nigeriana). Destarte, filho de dois mundos, ele utilizou o que aprendeu com o colonizador para tratar dos costumes ibos; a partir da língua do colonizador e de sua prática de escrever sobre o colonizado (como ele salienta no final do livro), Achebe ressignificou e construiu um romance que com maestria destrincha a maneira pela qual se dá a dialética do contato entre costumes diferentes.




Outro dado presente na trajetória de Chinua Achebe e de O mundo se despedaça é que o romance foi publicado dois anos antes da emancipação nigeriana do jugo britânico. Tomando por base a discussão feita acima sobre o autor ser filho de dois mundos, temos que no momento da escrita e publicação da obra, a própria Nigéria estava passando por uma situação de reorganização social. Sendo assim, mesmo que tomemos o a escrita como parte de um discurso antiimperialista, retratando a Nigéria do século XIX antes da chegada dos europeus. O romance está inserido em seu próprio tempo, e daí sobrevém o quanto o próprio título de livro pode estar relacionado com conjuntura da época em que foi escrito. O mundo se despedaça pode significar para além do processo inicial de colonização, como também o processo de emancipação da Nigéria.
É possível pensar assim, pois como podemos ler nos textos que tratam acerca dos processos de independência das colônias africanas, em muitos casos não houve guerras de independência e sim movimentos de pressão, interna e externamente, inclusive grupos ligados a religião. A década de 1950 (quando foi escrita a obra) representou quase que de maneira geral, o levante e emancipação de diversas colônias africanas, porém a emancipação não significou e nem poderia significar o retorno a condição pré-colonização. Os estados africanos tinham sido em sua maioria inventados durante o período colonial, nações rivais agora pertenciam a um mesmo Estado, fronteiras foram desfeitas e refeitas, os costumes das aldeias já tinham sido mesclados com os costumes do colonizador, bem como a religião. A partir daí, as contestações anti-imperiais tinham sido, como contradição, elaboradas no seio da própria política colonial. E assim, o mundo colonial passou a se despedaçar como Okonkwo afirmou em um momento que a realidade lhe sobreveio a mente “ele (o homem branco) cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos”

Portanto, nesse jogo de uma relação entre dois mundos, a educação britânica anglicana e as tradições ancestrais do povo ibo, Chinua Achebe no momento em que o mundo colonial africano passava por agitações, escreve e inscreve O mundo se despedaça dando visibilidade as práticas e costumes de seu povo a partir de uma prática já demasiada conhecida do colonizador: a escrita.

REFERÊNCIAS:

ACHEBE, Chinua. O mundo se despedaça. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2009.

CURTIN, P. D. “Tendências recentes das pesquisas históricas africanas e contribuição à história geral”. In: História Geral da África. São Paulo/Paris, Ática/UNESCO, 1980, pp. 73-89

KI-ZERBO, Joseph. “Introdução”. In: História Geral da África. São Paulo/Paris, Ática/UNESCO, 1980, pp. 21-41.

SANTOS, Frei João. Etiopia Oriental e Vária História de Cousas Notáveis do Oriente [1609]. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999. (Excertos)

OUZOIGWE, Godfreiu N. Partilha européia e conquista da África: apanhado geral. In: Boahen, Adu. (org.) História Geral da África - VII. São Paulo/Paris, Ática/UNESCO, 1985, pp. 43-67 

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