Pelo Ocidente Medieval...

sexta-feira, 5 de junho de 2009 0 comentários
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. 2. ed Lisboa: Estampa, 1983-1984. 2v. cap 1.

É a partir da crise do império romano que o ocidente medieval irá se erguer. “Roma foi o seu alimento e a sua paralisia”. Roma caracterizou-se por um império inclinado a si mesmo. Desenvolveu um exército de defesa, era alimentada pelo sistema de pilhagens e foi construída em um perímetro onde poderia se defender, os limes (limite, fronteira, muros de Roma). Elementos como a concessão da cidadania romana a todos os habitantes do Império e até mesmo imperadores de origem estrangeira, como espanhóis, gauleses e orientais indicam os efeitos da crise do século III em Roma. Estes são também por outro lado, elementos do êxito da romanização.

Outro elemento de importante teor para a ruína de Roma foi o crescente desequilíbrio do Oriente que florescia, a mercê dos mercadores sírios e judeus e o Ocidente, que definhava e já não conseguia mais obter ouro e o sistema de pilhagens, que há muito tempo já não trazia resultados. Constantinopla, que se torna a capital do Império, é o grande sinal deste florescer do Oriente, ao passo que o Ocidente passa por amargas crises. “Bizâncio continuará Roma, sob as aparências da prosperidade e do prestígio, prolongará até 1453, por trás das muralhas, a agonia romana”.

A religião cristã possui características de universalidade, isto é, abranger todos os povos e civilizações e como Le Goff apresenta Roma, apesar da falsa impressão de conquista, apresenta-se como um império que se flexiona a si mesmo. “O cristianismo é um falso aliado de Roma”. As tentativas de união entre o Ocidente decadente e o Oriente próspero irão marcar todo o ocidente medieval. O cristianismo que assimila formas românicas, ou seja, que se fecha, em outros momentos assume suas características primitivas, isto é, de religião aberta a todos os povos. A opção por um mundo rural ou um mundo urbano será uma questão que irá permanecer durante um período de dez séculos.

As invasões bárbaras, termo que o autor utiliza, foram a precipitação do fim de Roma, acrescentando-lhe um caráter catastrófico e sombrio. As invasões não foram novidade para os romanos, desde o século II os romanos conviviam com os germânicos em seus limes e com constante ameaça de invasão. Com a emancipação e independência das províncias, Roma já não dava suporte, os suprimentos não chegavam, ficando a população a mercê das tribos bárbaras que circunvizinhava os limes.

Do oriente surgem tribos bárbaras como os godos, que depois se dividem entre visigodos e ostrogodos, os vândalos e os hunos. Muitos povos vêm da península Escandinávia e da Sibéria. Dentre as características mais importantes das invasões podemos destacar: foram quase sempre fuga de outros povos e que esbarraram no império romano, que muitas vezes lhes negavam guarida; os romanos mantinham os bárbaros em seus limes, mas em condições subumanas; os romanos que viviam nas fronteiras aceitaram as tribos, respeitavam suas leis, os costumes em troca de obter soldados e camponeses, visto que Roma já não dava conta de seu território e assim diminuir o déficit de mão-de-obra servil e militar; para alguns romanos daquela época as invasões ocorreram pelo abandono dos deuses em adesão ao cristianismo, outros interpretaram que foi por causa do pecado dos romanos (inclusive dos cristãos), outros ainda enxergavam os bárbaros mais benevolentes que os romanos em suas conquistas, por não terem derrubado as igrejas e aceitarem que as pessoas se refugiassem nelas.

Roma em crise aumenta os impostos pra tentar amenizar a situação, mas sua população já está enormemente empobrecida e para fugir do jugo das políticas romanas de opressão, as massas camponesas e militares buscam refúgio entre os bárbaros, onde tinham mais liberdade do que quando eram cidadãos romanos, entretanto tratados como escravos. Os bárbaros tinham admiração pela cultura romana, tão famosa por várias partes do mundo até então conhecido, desta maneira eles aceitaram que muitos romanos entrassem em suas tribos, alcançassem cargos e uma espécie de romanização, desta forma houve uma aculturação, temo este designado por Le Goff e que outros autores preferem chamar de simbiose. Em suas longas viagens, os bárbaros também conheceram outros povos e civilizações, principalmente os asiáticos e a cultura Greco-romana, assim trouxeram técnicas avançadas de metalurgia e arte do couro por exemplo.


Apesar da intensa romanização dos povos bárbaros, nenhum líder cunhou para si o título de imperador, sempre esteve sob o poder nominal do imperador de Constantinopla, situação que perdura até Carlos Magno. Ostrogodos, visigodos, burgúndios, vândalos e lombardos se convertem ao arianismo, uma heresia o que levou a intensas lutas entre estes povos arianos e os romanos católicos. A acomodação bárbara foi em alguns momentos natural, mas em outros momentos violentas e agressivas, havia acirramentos de disputas internas, muitas provocados pelos próprios romanos, interessados na fragmentação destes povos. “A confusão aumentava com o terror e, mesmo que descontemos os exageros, as narrativas de morticínios e de devastações que enchem a literatura do século V não nos deixam dúvidas acerca das atrocidades e destruições que acompanharam os “passeios” dos povos bárbaros.


“O ferro, a fome, as doenças, as feras serão os sinistros protagonistas dessa história”. São essas características que irão atravessar todo o ocidente medieval. Ora ao ritmo de lentas infiltrações e de avançadas, mais ou menos pacíficas ora ao ritmo de bruscas arremetidas acompanhadas de lutas e morticínios, a invasão dos bárbaros modificou profundamente, entre o século V e o fim do século VI, o mapa político do ocidente que estava sob a autoridade nominal do imperador bizantino”.


Um acontecimento de grande importância foi a formação do império huno de Átila, que unificou restos de exércitos de outros povos bárbaros que havia subjugado e manteve relações ambíguas com Bizâncio, ou seja, tinha certa amizade com o imperador do Oriente, muito embora parecesse sempre a espera da oportunidade para tomar Constantinopla. Átila e os hunos atravessaram todo o ocidente medieval, desde a capital do império do Oriente até a Espanha, entretanto com a morte de seu líder, este império se esfacelou, sendo bastante efêmero.


Grandes personagens desse período foram sem dúvida Clóvis e Teodorico. Clóvis, da tribo franca dos Sábios, conquistou a Gália e unificou as diversas tribos francas existente, é convertido ao catolicismo romano, diferentemente dos outros reis bárbaros que a priori haviam aderido ao arianismo, seita condenada pela Igreja no Concílio de Nicéia, adere a hierarquia eclesiástica e expande os territórios sob domínio dos francos, no entanto, não consegue chegar ao mediterrâneo, pois Teodorico o impede de conquistar a Provença. Teodorico foi o líder que conduziu os ostrogodos à conquista da Itália, constituindo ali o reino ostrogodo, por ter residido em Bizâncio durante muito tempo, trouxe consigo padrões político, administrativos e culturais de lá. Foi Teodorico o responsável de impedir a conquista dos francos ao mare nostrum.


Os imperadores do Oriente evitaram a todo custo a chegada e tomada dos bárbaros à Constantinopla, desviando-os para o ocidente, concedendo aos reis bárbaros título como de cônsul e patrícios em troca de uma vaga submissão. Afastar esses povos bárbaros era uma questão prioritária para esses imperadores, mas que não conseguiram concretizar, visto que os vândalos e posteriormente os árabes se apoderaram do mediterrâneo. Esse cenário teve duas importantes mudanças. A política imperial de Bizâncio, que com o advento de Justiniano, pretendia reconquistar senão todo o ocidente do império, pelo menos o domínio mediterrânico, outro acontecimento basilar foi o aparecimento do Islã, que submeteu toda a península ibérica, sul da península itálica e chegou até a Provença, mas Carlos Martel retomou-a em 732.


“O mundo medieval resulta do encontro e da fusão de dois mundos que iam evoluindo um para o outro, de uma convergência das estruturas romanas e das estruturas bárbaras em transformação”. Importantes características desta transição foram: a ruralização crescente; declínio das cidades; trocas das estradas romanas por vias fluviais; a cristianização e a cristandade; perda de poder decisivo de Roma sobre seu exército e prevalecimento de leis consuetudinárias.

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