Falando Superficialmente sobre imagens invisíveis: a linguagem visual das cidades...

sexta-feira, 13 de julho de 2012 0 comentários
É inegável que na sociedade ocidental as cidades passaram ao centro da vida da maioria dos indivíduos. No ambiente urbano ocorre a maioria das relações do mundo contemporâneo; as ruas, os edifícios e os bairros contêm os elementos da vida cotidiana das pessoas ao mesmo tempo em que estas inscrevem suas experiências e constrói a cidade à medida que vão habitando-a.

 


Ao caminhar pela cidade os cidadãos apreendem continuamente as suas imagens. Sobre o conceito de imagem convém ressaltar sua definição a partir da etimologia: do latim imago, imagem significa representação visual de um objeto, tendo no grego o termo eidos (ideia) como correspondente. Deste modo, entende-se que à medida que os transeuntes apreendem as imagens da cidade, também constroem suas ideias, isto é, projeções mentais daquilo que percebem. Esta apreensão da cidade através dos sentidos e como cada indivíduo pode ter sua própria leitura nos livros estão nos livros As Cidades invisíveis (Ítalo Calvino) e A Imagem da Cidade (Kevin Lynch).


Em As Cidades Invisíveis, obra ficcional, à medida que as cidades são descritas, fica claro a singularidade de cada uma delas segundo aqueles que lá vivem ou por lá passam. Calvino construiu sua obra a partir do diálogo entre o viajante Marco Polo e o imperador mongol Kublai Khan, onde o viajante descreve cinquenta e cinco cidades agrupadas em onze tipos, a saber: “As cidades e nome”, “As cidades e a memória”, “As cidades e o desejo”, “As cidades e os símbolos”, “As cidades delgadas”, “As cidades e as trocas”, “As cidades e os olhos”, “As cidades e os mortos”, “As cidades ocultas”, “As cidades contínuas”, “As cidades e o céu”. Embora seja uma obra de literatura, ao ler As Cidades Invísiveis se reconhece as variáveis maneiras de se olhar e pensar a cidade:

“Também retorno de Zirma: minha memória contém dirigíveis que voam em todas as direções a altura das janelas, ruas de lojas em que se desenham tatuagens na pele de marinheiros, trens subterrâneos apinhados de mulheres obesas entregues ao mormaço”. (CALVINO, 2003. p. 11.)
        
         Discutindo o aspecto das cidades, Kevin Lynch, percebendo-a como algo para ser contemplado, afirma que a cidade é uma construção no espaço. Desta maneira, todo cidadão possui relações com algumas partes da cidade e a sua imagem está impregnada de memória e significação. O tema da interação entre a cidade edificada e a cidade evidenciada permeia todo o livro. Através de entrevistas em três cidades estadunidenses, o autor procurou estabelecer balizas para as percepções de cada cidade, quais as maneiras de se localizar espacialmente e qual imagem os cidadãos tinham para cada paisagem urbana.

“A cidade não é apenas um objeto perceptível (e talvez apreciado) por milhões de pessoas das mais variadas classes sociais e pelos mais variados tipos de personalidades, mas é o produto de muitos construtores que constantemente modificam a estrutura por razões particulares”. (LYNCH, 1996. p. 12)

         Neste sentido, a cidade se configura como o resultado da confluência dos sentidos e para Lynch é imprescindível na composição do ambiente visual, fatores como: legibilidade, estrutura, identidade, significado e imaginabilidade. Ao definir estes conceitos Lynch se aproxima das características apontadas por Calvino quando descreve as cidades do subgrupo “As cidades e os símbolos”; no conjunto das cidades deste subgrupo depreende-se que a paisagem urbana vai para além do conjunto edificado, tendo em vista que por meio de estruturas com significados diferentes o individuo tem para si uma cidade impregnada de enigmas.

“O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes”. (CALVINO, 2003. p. 09)

         Para Lynch é essencial que as cidades possuam qualidade visual, isto é, uma estrutura de símbolos reconhecíveis, posto que a cidade seja objeto de percepção de seus habitantes. Quando a rede de símbolos é bem definida e com distinções claras os indivíduos tem maior segurança para transitarem pela urbe. Assim, a cidade é potencialmente o símbolo poderoso de uma sociedade complexa. Estes símbolos se constroem gradativamente e uma imagem de uma dada realidade pode variar significativamente entre diversos observadores, contudo observa-se que são possíveis imagens públicas, ou seja, projeções mentais comuns a um grande número de indivíduos de uma cidade.




Possuindo uma imagem legível, o habitante de uma cidade passa a compô-la segundo sua subjetividade. Disto decorre a identificação de um objeto distinguindo-o de outras coisas (identidade) e a relação do espaço com o observador e com outros objetos (estrutura). Todavia, para Lynch, a estrutura e a identidade só fazem sentido na medida em que haja um significado prático e/ou emocional. Relacionando as partes físicas da cidade com as imagens de seus habitantes chega-se ao conceito de imaginabilidade: “àquela qualidade de um objeto físico que lhe dá uma grande probabilidade de evocar uma imagem num dado observador” (LYNCH, 1996. p. 20.). Entretanto, a falta destes elementos na paisagem urbana pode levar a um grande caos e a insegurança daqueles que se movimentam pela cidade, exemplo disso está na cidade Zoé em As cidades invisíveis:

O viajante anda de um lado para o outro e enche-se de dúvidas: incapaz de distinguir os pontos da cidade, os pontos que ele conserva distintos na mente se confundem. Chega-se a seguinte conclusão: se a existência em todos os momentos é uma única, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. (CALVINO, 2003. p. 17.)

         Como resultado das entrevistas realizadas para a elaboração do livro, Lynch afirma que dentre as imagens concebidas pelos indivíduos, cinco elementos são comuns a qualquer habitante na sua composição imagética da cidade: as vias, os limites, os bairros, os cruzamentos, os elementos marcantes. Estes elementos não são apreendidos de uma só vez e cada um possui características próprias, por exemplo: penetráveis (cruzamentos, bairros) ou impenetráveis (pontos marcantes); de caráter primário (vias) ou secundário (limites), dentre outras características.


A leitura das duas obras permite uma maior visibilidade sobre os aspectos imagéticos de uma cidade, posto que através dos conceitos práticos discutidos por Lynch e a beleza estética desenvolvida por Calvino se chega a imagens variadas sobre os detalhes da cidade como um todo, tendo assim uma infinidade de temas que podem ser abordados a partir da leitura de A imagem da cidade e de As cidades invisíveis. Aqui foram privilegiados os aspectos referentes aos símbolos e a leitura dos mesmos. Umas das ilustrações que Calvino oferece acerca das cidade é que elas são feitas de matérias manipuláveis e altamente mutáveis e que os elementos que distinguem uma cidade da outra são na verdade identificadores a todas as cidades de uma maneira geral, o que torna uma paisagem urbana singular em relação a outra é a relação do observador com seu objeto: a cidade; e que segundo Lynch, isto se dá por meio da linguagem visual que ela oferece.

REFERÊNCIAS:
·     CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. Tradução Diogo Mainardi. São Paulo: Biblioteca Folha, 2003.
·   LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução Maria Cristina Tavares Afonso. Lisboa: Edições 70, 1996.
·  SABOYA, Renato. Kevin Lynch e a imagem da cidade. Disponível em: <http://urbanidades.arq.br/2008/03/kevin-lynch-e-a-imagem-da-cidade/>. Acesso em: 07/06/12.
· ZIGGIATTI, Evandro Monteiro. Cidades visíveis visitadas: Uma leitura de Ítalo Calvino para compreender a paisagem urbana. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/08.085/3050>. Acesso em: 06/06/12.

*As imagens são pinturas de Nora Sturges inspiradas nas viagens de Marco Polo presentes na narrativa de Ítalo Calvino: As cidades invisíveis.

**Por fim, uma animação baseada em uma das cidades descritas por Marco Polo:
AS CIDADES E O DESEJO 5:


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