O Outro, um conflito...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012 0 comentários

E a partir de então aqueles dois mundos não mais se distanciaram...
O período de chuvas já havia passado, pairava sobre a costa um clima mais ameno, entretanto bastante úmido (como é comum em áreas de floresta), Ubiraci e seus amigos trabalhavam em um conserto de equipamentos deteriorados devido à última tempestade quando avistaram uma enorme construção no horizonte marítimo. Espantaram-se, seus olhos nunca tinham visto nada igual; à medida que se aproximava, aquele objeto estranho adquiria em sua mente um caráter monstruoso e mítico.
Pedro parecia enfim ter chegado a um de seus destinos após meses no mar enfrentando tempestades, lutando contra doenças, com falta de água e alimentos. Ele e sua tripulação, ao perceberem que em breve pisariam em terra firme, extasiaram-se de alegria. Mesmo maltrapilhos cada um escolheu um presente para entregar aos habitantes daquele lugar (possivelmente em troca de água e comida).
Na comunidade de Ubiraci havia uma profecia religiosa, aliás, não só na comunidade dele, mas como em algumas outras dezenas de grupos que habitavam aquele espaço de praias e florestas. Sinteticamente a profecia dizia que, em tempos difíceis, o deus Sol viria ao encontro das comunidades e as uniria novamente, pois, este seria o retorno ao princípio de tudo. Ao contrário disso, naquele tempo o que existia eram grandes rivalidades entre a maioria das comunidades, muitos já haviam morrido nestes conflitos e a cada ano as tempestades vinham aumentando, o que era identificado como castigo pela desunião das comunidades.
Os tripulantes tinham um desejo: levar a glória de Deus, criador dos céus e da terra, a todos os lugares. Eles criam que sua fé era a única possível, a verdadeira. Sua missão era fazer com que todo ser vivente acreditasse em um único Deus, o seu Deus.
Já era fim de tarde quando Ubiraci e seus companheiros receberam aquela visita inesperada. Era homens com os corpos demasiadamente cobertos, a pele clara, muito clara, clara como o sol. Tinham tantos utensílios e com tantas funções que pareciam criações de algum ser divino. Pedro e os tripulantes por sua vez, assustaram-se com tamanha depravação naquele ambiente: homens, mulheres e crianças quase em sua totalidade nus ou com apenas pequenos apetrechos cobrindo “as partes”. Não tinham nenhuma riqueza (não havia sinal de ouro e prata). Com efeito, aqueles seres não conheciam a Deus.
Ubiraci, chefe da comunidade e guerreiro respeitado até em outros grupos, não conseguiu falar com aqueles visitantes; eles tinham uma língua estranha. Ainda assim fizeram festa, acreditavam ser o deus Sol e seus auxiliares que tinham vindo unir as comunidades. Todavia, o que parecia ser a solução daqueles tempos difíceis não se concretizou. Após o primeiro contato, o deus Sol e seus companheiros já não tinham tanta graça: impuseram-lhes trabalho forçado, não compreendiam seus costumes, queriam ensinar-lhes outra língua, não aceitavam sua religiosidade. Algumas comunidades nunca aceitaram aqueles seres de pele clara, outras passaram a resistir, mas nunca mais conseguiram isolarem-se umas das outras, mesmo que talvez nunca tenham respondido: quem é o Outro?

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