Porque Tudo Muda...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Falando superficialmente sobre interculturalidade...


O conceito de interculturalidade está relacionado intimamente com os movimentos migratórios, principalmente os que ocorreram no século XX. Apesar de a humanidade ter sempre vivido em deslocações entre territórios (umas épocas mais que outras), após a II Guerra Mundial, a desagregação do mundo colonial e da divisão bipolar do mundo surgira, diversos estudos sobre os fluxos migratórios ocorridos desde então quer sejam, intranacionais, quer sejam internacionais.
Neste contexto é que aparece o conceito de interculturalidade, que em síntese significa uma apreciação e valorização das diversas culturas que habitam em um determinado espaço, ocorrendo políticas públicas para uma interpenetração recíproca dos diversos elementos culturais constituintes das sociedades cosmopolitas. Essa “mistura”, por assim dizer, não acontece de forma intuitiva ou natural e é por isso, que o conceito de interculturalidade se distingue de multiculturalidade, enquanto aquele se refere a um conjunto de relações entre culturas distintas e também de políticas que favoreçam essa integração, esta se reporta a apenas a coexistência de várias culturas em um mesmo lugar e, por conseguinte, sem interpenetração entre si.
Contudo, há perigos a serem evitados quando se tenta por o conceito de interculturalidade na prática; um deles é ao propor uma apreciação e valorização do outro, pois, na relação centro e periferia, colonizador e colonizado pode acontecer uma valorização do Outro enquanto um ser exótico, algo fora do comum, mas sem de fato procurar perceber nesse Outro suas experiências, vivências e cultura.
Deste modo, podem-se identificar no documentário Os Lisboetas aspectos desses conceitos. Ao apresentar uma vida cosmopolita em Lisboa. O documentário realça o fato de ter havido um intenso fluxo imigratório, principalmente do leste europeu, mas também de regiões da África e de outras nações como Brasil e Índia. Essa presença heterogênea capital portuguesa não significou políticas eficientes de inter-relação entre essas diversas culturas e nem um Estado preparado para receber tantos imigrantes. Inocência Mata, discute estes aspectos, sobretudo em relação à presença de africanos em Portugal após as guerras coloniais. Segundo ela, houve um silenciamento desta época no discurso da nação, ou seja, passados mais de vinte anos, a sociedade portuguesa não discute nem se atém as consequências do fim da guerra colonial, sobretudo a respeito dos retornados.
No documentário temos exemplos de como não há política de interculturalidade no Estado português, os funcionários públicos que trabalham com estrangeiros não falam outra línguas além do português, as leis trabalhistas não contemplam igualmente os estrangeiros ou simplesmente não há fiscalização de como são tratados os imigrantes nas empresas. Assim, através do documentário, pode-se inferir que, em Lisboa há multiculturalidade, isto é, coexistência de culturas diversas, todavia não há uma relação intercultural, os portugueses muitas vezes ignoram a cultura dos imigrantes e estes em contraponto se relacionam mais com os seus compatriotas, não imergindo assim no mundo cultural em que habita, vivendo como estranhos de passagem.

Referências:
·         MATA, Inocência. ‘Estranhos em permanência: a negociação portuguesa na pós-colonialidade’. In Manuela Ribeiro Sanches (org.): Portugal não é um país pequeno. Lisboa: Ed. Cotovia, 2006, p.285-315.
·         Imagem extraída de: libcom.org
OBS: O documentário Lisboetas encontra-se no Youtube dividido em dez partes.

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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Comentários sobre as estrelas na contemporaneidade...


A contemporaneidade trouxe a tona o consumo massificado, ainda que este consumo tenha ocorrido em temporalidades distintas em cada parte do mundo temos hoje produtos mundiais como, por exemplo, a Coca-Cola e o Mc Donald’s. Há também o consumo decorrente do aparecimento de estrelas midiáticas, dentre as quais podemos citar Ronaldo Fenômeno, Lionel Messi, Michael Jackson, Madonna, etc. os meios de comunicação são o veículo principal da propagação destas personalidades pelo mundo a fora. No caso dos esportes por muito tempo a prática esportiva foi encarada como divertimento e lazer, a profissionalização e mercadorização dos esportes promoveram a heroicização dos seus praticantes, que alcançaram relevância não mais apenas em nível local, mas em escala global. Nos esportes é possível identificar que são diferenciados por questões econômicas, os consumidores de futebol são diferentes dos consumidores de golfe, por exemplo; isto significa que as estrelas dos esportes são direcionadas a grupos sociais distintos.


As estrelas são fabricadas de acordo seus consumidores prováveis, percebemos isso não só nos esportes, mas também nas estrelas de TV e do Cinema. As estrelas de cinema e TV, assim como no desporto, o público para o qual estão direcionadas estas estrelas é sempre estudado e também elas imprimem certas ideias e hábitos na sociedade em geral, como ilustração citamos o “american way of life” propagado pelo cinema hollywoodiano ou ainda as transformações de comportamento geradas pelas estrelas da música. Em suma, por seu sucesso, as estrelas são admiradas, seguidas e muitas vezes não identificadas pelos consumidores como produto de um mercado cultural, entretanto estas estrelas do século XX não são como as do firmamento, isto é, são produzidas, começam a brilhar e podem se apagar rapidamente.

Fonte da imagem:
Freevector

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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Falando superficialmente sobre o século XX...

Segundo o historiador Eric Hobsbawm podemos caracterizar o século XX como breve, em sua obra A Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1191) Hobsbawm temporaliza o século XX entre duas baliza: o início da I Guerra Mundial e a dissolução da União Soviética. Apesar de breve temporalmente, o século XX foi palco de grandes avanços científicos, acontecimentos que quase levaram a humanidade a seu fim e o surgimento de duas superpotências mundiais que praticamente dividiram o mundo ao meio: o capitalismo e os EUA x o socialismo e a URSS.

Ainda falando dos acontecimentos, o historiador inglês situa a Revolução Russa (1917) como um divisor de águas, posto que suscitou em várias partes do mundo questionamentos críticos ao modelo capitalista, tendo o comunismo soviético como melhor alternativa. No entanto, a II Guerra Mundial pode ser considerada o epicentro deste breve e agitado século XX, ainda que anterior a 1939-45 possamos encontrar grandes avanços na ciência e os seus desdobramentos na sociedade ocidental, sobretudo.
É após a II Guerra Mundial que a Europa Ocidental, notadamente Inglaterra e França vão perder a hegemonia de potências globais, tendo em vista a sobreposição dos EUA e da URSS como superpotências, que no período comumente denominado Guerra Fria fizeram controle sobre boa parte do mundo, quer seja por via ideológica, econômica ou militar. É neste contexto que surgem grandes agendas para estudar o século XX, tratando em específico do bloco ocidental podemos identificar a intensificação das propriedades do consumo, onde é colocado que a democracia gera processo tecnológico e, por conseguinte bem-estar social.


 
Neste grande tema que é o consumismo é possível sinalizar algumas alterações sociais advindas do desenrolar do século XX, como por exemplo: o turismo, a fim de que os indivíduos possam ter mais acesso a outros lugares/culturas, mas também façam o capital girar; os esportes se profissionalizaram, onde não só a prática do esporte se torna produto, mas também os próprios esportistas passam a ser comercializado; as “estrelas” da música, do cinema, da televisão vão engendrar costumes, práticas sociais gerando um grande mercado de publicidade e propaganda.



Neste espetáculo de variados atores, a década de 1960 pode ser percebida como uma das grandes décadas no breve século XX, haja vista que é nesta década que explodem várias revoltassem vários lugares do mundo, corrida espacial e armamentista, discussão sobre as minorias, etc. assim sendo, o século XX foi o século do questionamento, seja da economia, da política, porém principalmente da identidade: capitalista ou socialista, homem ou mulher, branco ou negro, ser humano ou não.

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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Comentários sobre a Revolução Industrial... [2]

A Revolução Industrial foi um dos fenômenos que mais tiveram importância no que concerne à configuração de como as sociedades em geral travavam suas relações econômicas, sociais e políticas. Porém, um processo transformador como este não surgiu de uma só vez em todo o globo, a Revolução Industrial teve suas origens em meados do século XVIII na Inglaterra, sobretudo através da maquinofatura têxtil. Eric Hobsbawm em sua obra A Era das Revoluções ressalta dentre outras características, a defesa de que as transformações ocorridas na Inglaterra de fato foram uma revolução, para isto ele recorre a aspectos quantitativos na produção inglesa a partir da introdução da máquina de tear a vapor e também aspectos qualitativos como a alteração nas sensibilidades e sociabilidades da sociedade inglesa a partir do surgimento da grande indústria.




É importante, ao analisar qualquer fato no passado discutir seu contexto, pois o historiador é por natureza um criador de contextos, na medida em que verticaliza sua análise, coloca em contextualização com o que a cerca e assim sendo, Hobsbawm dispões elementos ao leitor para que perceba em que conformidade das coisas ocorreu a Revolução Industrial na Inglaterra. No contexto externo, o autor afirma ser a França muito mais bem dotada no nível educacional e por sua vez, Alemanha e Bélgica possuidoras de mais tecnologias industriais que a Inglaterra, ainda poderia ser acrescentada nesse rol a Holanda, expoente comercial nesse período. Isso mostra como a Inglaterra tinha menos desenvolvimento em alguns aspectos comparados a outras nações da Europa, contudo havia ocorrido grande acumulação de capitais, principalmente após o período da Revolução política Inglesa, em que a burguesia constitucionalizou a monarquia gerando assim uma monarquia parlamentarista na Inglaterra ainda no século XVII, deste modo foi possível que a burguesia aparelhasse o Estado inglês em seu favor, favorecendo a propriedade privada, a exemplo dos cercamentos. Além disso, o Estado inglês também acumulou muito capital através dos corsários no Atlântico e também, por meio de empréstimos e tratados comerciais com outras nações, por exemplo, o Tratado de Methuen com Portugal.

Com o aumento das reservas de capital tanto individual quanto estatal; a prática de cercamentos em que alterou marcadamente a forma de produzir e consequentemente beneficiou grandes produtores, ocasionando a saída dos pequenos camponeses para as cidades pela falta de trabalho no campo e o desenvolvimento das novas técnicas de fiar o algodão (principal produto de exportação inglês, ou seja, suas manufaturas) impulsionou um movimento de investimentos cada vez maior na indústria, que tinha bastante mão-de-obra vinda do campo e capital suficiente a utilizar.
Portanto, é nesse entrelaçamento de fatores que ocorre a Revolução Industrial para Hobsbawm, e para ilustrar as alterações sociais neste período é possível utilizar o capítulo XIII de O Capital intitulado “Maquinaria e Grande Indústria”. O autor desta, Karl Marx, é contemporâneo desta avalanche transformadora das relações de produção que é a grande indústria. Marx neste capítulo se detém em discutir como o modo de produção capitalista alterou não só as relações de trabalho, mas as relações com o tempo, as relações familiares, as relações com a natureza, etc., enfim o homem e o mundo já se conheciam e reconheciam de maneiras totalmente diferentes. Bem como Hobsbawm, Marx elenca aspectos quantitativos a respeito da produção, como a cada nova máquina mais moderna se passa a produzir mais e ao mesmo tempo ele vai mostrando a perda dos trabalhadores em salários e o aumento de desemprego, aumento da jornada de trabalho de sua intensidade. Também põe em destaque a condição de trabalho do proletariado: lugares insalubres, falta de segurança, etc.

                      

Marx discute o conceito de mais-valia, que é a exploração do homem pelo homem como fonte de riqueza e base de sustentação da economia capitalista, e segundo ele a indústria é o lugar por excelência que ocorre esta expropriação do homem, a grande indústria significa a consolidação do capital como estrutura econômica. Enfim, a Revolução Industrial além de consolidar o capitalismo, é um processo que desde quando se iniciou não mais parou, significando a apropriação da burguesia das relações de produção.

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